Como tratar Gastroenterite?

A gastroenterite é uma doença que causa o comprometimento do sistema digestivo pela ingestão de alimentos ou água contaminados por vírus, bactérias, toxinas e parasitas. Estes intrusos invadem o nosso corpo e se multiplicam causando vários sintomas: náuseas, vômito, diarréia, cólica, dor de cabeça, febre e prostração. Os sintomas podem apresentar diferentes níveis de gravidade sendo, muitas vezes, necessário procurar atendimento médico. É uma doença que inabilita as pessoas de exercerem sua profissão e causa extremo desconforto podendo em grupos de risco levar a óbito se não for diagnosticada e tratada com rapidez.

No Brasil, entre 1999 e 2008, foram notificados 6.062 surtos de doenças transmitidas por alimentos envolvendo 117.330 pessoas com 64 óbitos. Dos agentes identificados, as bactérias foram causadoras de 84% dos surtos, seguidas pelos vírus (13,6 %), substâncias químicas (1,2 %) e parasitas (1 %).

Existem 3 termos que classificam as doenças: infecção alimentar, intoxicação alimentar e toxinfecção alimentar. A infecção ocorre pela ingestão de microorganismos existentes nos alimentos. A intoxicação alimentar ocorre pela ingestão de toxinas pré-formadas nos alimentos contaminados. A toxinfecção alimentar ocorre quando o microorganismo libera toxinas dentro do corpo humano. Essa classificação é importante para entendermos que existem diferentes mecanismos de ação.

O objetivo desta matéria é apresentar as principais formas e causas de manifestação e os cuidados necessários para reabilitação.

O trajeto do alimento envolve a boca, esôfago, estômago e intestino. Ao cair no estômago, possuímos uma produção de ácido clorídrico que justamente tem a função de auxiliar na digestão dos alimentos. Devido ao seu pH muito ácido (2,5), muitos microorganismos acabam morrendo. Sabe-se que a resposta depende da agressividade do microorganismo, da quantidade ingerida ou da quantidade de ácido clorídrico no estômago podendo ou não desenvolver a intoxicação alimentar. Quando o microorganismo ou toxina ultrapassa essa barreira,chega no intestino, sendo neste local que causa danos. Dependendo da agressividade do microorganismo ou estado imunológico da pessoa, ocorre multiplicação e ou invasão da mucosa intestinal pelo patógeno onde a diarréia é uma resposta do corpo tentando eliminar este invasor.

As infecções virais são causadas em sua imensa maioria pelo rotavirus, norwalk vírus, adenovirus e astrovirus. Apresentam quadro de febre, dores musculares, vômitos e diarréia aquosa e profusa. Com espectro de gravidade variável podendo ser fatal em crianças muito jovens, idosos e imunocomprometidos. As infecções virais tem duração de 3 a 7 dias, dependendo do ciclo de vida do vírus. Devido a perda de líquido, é recomendável a reposição hídrica. Para tratar a febre e a dor utiliza-se antitérmicos e analgésicos.

Já as Infecções bacteriana possuem manifestação e tratamento distinto. São causadas por diversos microorganismos, como S. aureus, Campylobacter jejuni,, Samonella, Yersinina, E. coli, Shigella, Clostridium botullinum, Vibrião colérico entre outras.

Cada bactéria causa uma doença específica, portanto vamos abordar cada uma delas separadamente:

S. aureus e B.cereus:

O quadro diarréico é causado pela toxina produzida pela bactéria. Causa diarréia,náuseas e vômitos. Período médio de encubação de 2 a 4h após consumo do alimento. Tratamento idem aos virais ,pois as toxinas tem ação limitada e são quadros que em sua imensa maioria são de pouca gravidade.

Salmonelose:

Famosa infecção causada pela s bactérias do gênero salmonella encontradas principalmente em ovos, frango e verduras não higienizadas. Causa de inúmeras intoxicações alimentares em jantares comemorativos. Causa diarréia profusa com gravidade e muitas vezes necessita internação hospitalar para tratamento intravenoso com reposição de líquidos e eletrólitos além da antibioticoterapia específica.

Shigelose (Disenteria bacilar):

Doença causada por água contaminada por fezes. Esta bactéria produz um quadro de diarréia profusa e mucossanguinolenta com febre alta e quadro de toxemia (o doente parece realmente estar muito doente). Tratamento idem à salmonelose. Essa bactéria produz uma toxina chamada shiga que pode causar complicações dramáticas como a síndrome hemolitica-urêmica (SHU), que cursa com insuficiência renal, anemia e redução nas contagens da plaquetas. O tratamento nestes casos requer UTI.

Escherichia coli:

Grupo de bactérias que causa uma ampla variedade de doenças diarréicas. Algumas com quadro apenas de diarréia, sem febre ou outras manifestações, totalmente autolimitado. Todavia, algumas cepas como a E. coli enteroinvasiva podem causar quadro de doença grave semelhante a Shigelose. Também são produtoras de toxina shiga e também causadoras de SHU.Tratamento idem à Shigelose.

Botulismo:

Doença causada pela toxina botulínica produzida pela bactéria Clostridium botulinum (considerada a toxina mais potente que se tem conhecimento). Curiosamente, esta toxina é utilizada em tratamentos estéticos, pois a toxina tem o poder de paralisar a musculatura, conhecido por Botox. Presente em alimentos enlatados, embutidos e patês sem garantia de procedência ou controle de acidez. Causa paralisia e fraqueza muscular, com acometimento da musculatura responsável pela respiração. Um quadro extremamente grave e fatal caso não seja identificado com rapidez. O tratamento requer suporte e administração do soro antitoxina botulínica o mais rápido possível.

Procure realizar as refeições somente em estabelecimentos que possuem controle de qualidade. As boas práticas de manipulação e produção são ferramentas fundamentais para evitar a contaminação dos alimentos. Surtos alimentares podem afetar a imagem da empresa e gerar prejuízos. Lembrando que é direito do consumidor reclamar e inclusive alertar as autoridades sanitárias se existe a suspeita de contaminação dos alimentos por falta de higiene.

Em caso de dúvidas, procure atendimento médico e evite a automedicação.

Referências:

ASSIS, Luana de. Alimentos seguros: ferramentas para gestão e controle da produção e distribuição. 2 ed. – Rio de Janeiro: Editora Senac, 2014.

TONDO, Eduardo César. Microbiologia e sistemas de gestão da segurança de alimentos/ Eduardo César Tondo e Sabrina Bartz. – Porto Alegre: Editora Sulina, 2014.

Veronesi: tratado de infectologia/editor científico Roberto Focaccia. – 5. Ed. Rev. E atual. – São Paulo: Editora Atheneu, 2015.

Escrito por: Rodrigo Mazeron Machado – Médico CRM RS: 40877 Residente de Infectologia do Hospital Nossa Senhora da Conceição de Porto Alegre (HNSC) 

No Comments Yet.

Leave a comment

You must be Logged in to post a comment.